Eu me chamo Antônio e não nasci aqui. Ainda me lembro das lágrimas de minha mãe ao me ver pela primeira vez. Não sei se chorava de felicidade ou se aquelas gotas salgadas eram o doce deslize de um susto. Ser mãe não é um privilégio, ou uma dádiva divina. Ser mãe muitas vezes é uma consequência da vida. E, nem por isso, é uma experiência menos valiosa. Era final de junho: eu chorei no colo de minha mãe, e ainda não tinha consciência que aquelas mãos seriam minha mãe. Era quase julho: eu chorei no colo de minha mãe, e ainda não tinha consciência que aquelas lágrimas seriam minha mãe. Era mês de férias: ela também chorou, e ainda não tinha a consciência que eu teria a capacidade de sorrir.

A primeira primavera

Você ainda não nasceu, mas já sorri como se conhecesse o mundo de cor, e já enxerga como se tivesse visto todas as cores do mundo, e até se comporta como se tivesse superado todas as dores do mundo. E ainda assim, sem ter começado a viver e ao mesmo tempo tendo vivido tão intensamente, ainda tem toda uma vida pela frente. Mas não se assuste, meu amor. Pode se amedrontar sem medo: viver é justamente matar o que nos assusta, e estamos aqui para te acompanhar. Por enquanto, você faz parte dos meus sonhos confusos e sua voz já ecoa pela minha realidade, pelos meus tímpanos, como se fosse me chamar a qualquer instante e, pode ter certeza, que a qualquer instante estarei lá, lá onde você estiver. Por enquanto, você é fruto da imaginação fértil da sua mãe e sua mão, pequena, já procura a grandeza dos seus dedos para segurar com toda a força que você ainda não tem e se sentir protegida naquele pedaço de pele tão desconhecido, mas que você sabe que será seu daqui pra sempre. E, assim, na ânsia de existir, de ser, sua boca já procura o seio menos distante para se alimentar de vida.

Você ainda não nasceu, mas já herdou o sorriso da sua mãe, que até então eu achava que não poderia pertencer a mais ninguém, mas agora vejo que também é todo seu. E isso me faz sorrir, feito criança. Você também herdou seus olhos grandes: duas sementes negras que precisam da água e do sal das suas futuras lágrimas para brotar e fazer florescer todo o seu brilho, um brilho que eu só encontro quando você esboça uma careta qualquer, procurando as palavras exatas que você não ainda conhece para dizer que me ama. Seus lábios são claros e são finos porque precisam dizer delicadamente o quanto você também a ama, e precisam pedir com ternura e simplicidade sempre que você precisar de um colo ou de uma palavra doce que conforte e acalme a sua alma. De mim, você herdou o fascínio pela sua mãe. E a minha timidez e os meus silêncios que, um dia, serão tão necessários. Principalmente quando você se apaixonar pela primeira vez. E, mais uma vez, meu amor não se assuste. Você, tão logo, vai se decepcionar. As paixões não têm o mesmo sabor. São breves, são loucas, são tantas e, entretanto, não chegam aos pés de um grande amor. Esse sim, eterno. Esse sim, dócil. Esse sim, fértil.

Você ainda não nasceu e já treme, não de frio, mas de saudade do agasalho bordado pelas mãos de sua avó, que você ainda não conheceu, mas que te espera com as mesmas rugas e os mesmos brinquedos. E já teme não ser filha única, soberana. E sente ciúmes do seu irmão mais novo dividindo os meus abraços, os beijos da sua mãe, o carinho dos dois. E quando você chorar, de frio ou de ciúmes, talvez meus ombros não estejam mais aqui porque um dia eu também preciso partir.

Você ainda não nasceu, mas já invade nosso mundo como se estivesse aqui há séculos e olha pra sua mãe como se já tivesse olhado tantas outras vezes para ela e pede para ser ninada como se nunca tivesse sido abraçada. Olho para vocês: ela, nos seus braços que agora são seu berço. Você, iluminada, como se guardasse deus no colo, com a delicadeza maternal de quem esperou nove meses, e esperaria até uma vida, só para vê-la sorrir, só para vê-la enxergar, só para vê-la se comportar como se já conhecesse as dores e as cores do mundo de cor, antes de nascer. 

Bate-papo para a SaraivaConteúdo

Por André Bernardo

O nome dele é Pedro Gabriel Anhorn. Mas pode chamá-lo de Antônio. Aos 29 anos, ele é autor de uma das páginas do Facebook mais comentadas do momento: a Eu Me Chamo Antônio. Desde que postou seu primeiro guardanapo, em outubro do ano passado, já totaliza mais de 400 mil seguidores. E, a julgar pelo lançamento do livro ‘Eu Me Chamo Antônio’, esse número deve aumentar nos próximos dias.

Tudo começou numa noite chuvosa de outubro. Na volta para casa e depois de ficar quatro horas preso num engarrafamento, o redator publicitário resolveu dar uma esticada no Café Lamas, no bairro do Flamengo, Zona Sul do Rio de Janeiro, para espairecer. Lá, enquanto aguardava seu sanduíche de rosbife com queijo, começou a rabiscar em um guardanapo de papel.

“Primeiro, encanto. Depois, desencanto. Por fim, cada um pro seu canto” foi a poesia que saiu.

De volta ao Café Lamas, onde tudo começou e onde ele desenhou boa parte de seus mais de mil guardanapos, Pedro Gabriel analisa a evolução de seu traço ao longo de um ano de trabalho, atribui o sucesso na Web à simplicidade de seus versos e dá detalhes de seu livro, ‘Eu Me Chamo Antônio’.

Leia mais em http://www.saraivaconteudo.com.br

Livro Eu me chamo Antônio

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Olá,

Para quem ainda não sabe, em novembro meu livro de arte em guardanapos, publicado pela editora Intrínseca, chega às livrarias. Ele já está em pré-venda no site de algumas livrarias. Nesse link, você encontra todas as informações necessárias:http://intrinseca.com.br/eumechamoantonio/

Antônio é o personagem de um romance que está sendo escrito e vivido. Frequentador assíduo de bares, ele despeja comentários sobre a vida — suas alegrias e tristezas — em desenhos e frases escritas em guardanapos, com grandes doses de irreverência e pitadas de poesia. Antônio é perito nas artes do amor, está sempre atento aos detalhes dos encontros e desencontros do coração. Quando está apaixonado, se sente nas nuvens e nada parece ter maior importância, e, quando as coisas não saem como esperado, é capaz de enxergar nas decepções um aprendizado para seguir adiante. Do balcão do bar, onde Antônio se apoia para escrever e desenhar, ele vê tudo acontecer, observa os passantes, aceita conversas despretensiosas por aí e atrai olhares de curiosos. Caso falte alguém especial a seu lado (situação bastante comum), Antônio sempre se acomoda na companhia dos muitos chopes pela madrugada.
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Eu me chamo Antônio

Material promocional. (Rio de Janeiro. Intrínseca, 2013) Todos os direitos reservados.

Fragmentos de ausência

O otimismo do amor me permite acreditar que a sua ausência fragmentada é uma possibilidade amável e provisória de tê-la continuamente presente em vários lugares: ao mesmo tempo:

- aqui, por exemplo. (sua voz balbucia de algum lugar que não existe, imagino eu)

E assim… Procuro, louco, catar um pouco do que você me oferece inocentemente todos os dias.

Ora,
seguro as suas mãos frias e peço que me levem para o lugar mais distante e quente do mundo:

seus olhos quando miram um ponto de fuga. Corra!

Ora,
encontro os seus lábios finos e tento penetrá-los com minha boca, com meu sexo, com meus poemas. Porra!

(desculpa!)

poesia é fuga de quem foge de cima de si
e na fuga deixa escapar
as palavras mais doídas, mais moídas, mais bonitas…

Ora,
esbarro com as suas verdades, e elas me confundem e elas se fundem neste cenário tão incoerente quanto indecifrável que é o coração de quem ama. Bata!

Ora,
vejo as horas apenas passarem, (que oração?)
sem querer debater com o tempo por que ele ainda vive com mania de me privar da sua companhia. Suma!

Ora,
encosto a palma da minha pluma na pele macia das suas costas tatuadas: tento decifrar o que as palavras ali escritas tentam não-dizer: e dizem tanto: e nada digo: e logo escrevo com a tinta invisível da saudade: outrora a gente junta todas as nossas all-sências.

Mas onde?

- aqui, por exemplo. (sua voz balbucia novamente de algum lugar que continua não existindo, imagino eu continuamente)

Às vezes, soluço

Às vezes, só ouço
a sua voz só,
entrecortada,
seguida de um silêncio inter-
-calado.
E só.

Ela me faz bem. Ele me conforta.
Os dois declaram a sua ausência fragmentada. Tolos!
Sua ausência é inteiramente completa.

Quem está aos pedaços é o que fomos.
Estamos hospedados um no vazio do outro.

outrora
a gente se junta e se completa
feito ausência fragmenta;
i
n
t
e
i
r
o
s,
pour toujours.

uma mulher já são tantas

Uma mulher já são tantas. Nela vive aquela que mordeu a maçã e mudou o destino do Paraíso. Aquela que se eternizou na fogueira em nome de um país. Aquela que colocou a primeira saia acima da altura do joelho e flexibilizou uma revolução moral. Aquela que fumou pela primeira vez um cigarro em público sem precisar se esconder nas grades invisíveis da hipocrisia. Aquela que rasgou o sutiã, colocou biquíni e, não satisfeita, fez biquinho para os moralistas de plantão.

Mas há também aquela que está do seu lado, aquela que não está nos livros de história, mas muda o rumo da sua história. Aquela que você chama de mãe, irmã, esposa, filha, vó, tia, prima… Aquela que desperta bem cedo, antes do sol, e, mesmo morrendo de sono, dá vida ao seu dia. E acorda descabelada, sim!; sem maquiagem, sim!; rouca, sim!; com a blusa furada, sim!; mas continua sendo a pessoa mais linda que você vai encontrar durante todo o seu dia. (Afirmo isso sabendo que você ainda nem saiu de casa!)

Uma mulher já são tantas. Nela mora aquela que se desespera quando vê uma barata e voa diretamente para os seus braços: e te assusta! Homem não tem medo de barata: homem tem medo do medo da mulher que se assusta quando encontra uma barata perdida, caminhando pelo chão da sala, se arrastando entre uma faca e um garfo no fundo da gaveta do armário da cozinha. Ah, não pense que é privilégio unicamente das baratas! Isso também vale para o maribondo, o pernilongo, a libélula, as aranhas e as borboletas. Pasmem: algumas mulheres se assustam com borboletas!

Uma mulher já são tantas. Nela convive aquela que sempre quer perder dois quilinhos, mas nunca pensa em abandonar o brigadeiro depois do almoço, antes do cigarro ou durante toda a TPM. Existe aquela que quer passar o domingo inteiro deitada de pijama, comendo pipoca, sem se preocupar com nada. E mesmo quando ela pedir para você escolher o filme, ela vai arrumar um jeitinho doce de você escolher o filme que ela já queria que você escolhesse antes mesmo de sair de casa e caminhar até a locadora. E o melhor: você nem vai se sentir pressionado e vai até ficar orgulhoso por ter escolhido O filme que ela queria! Ela vai sorrir. Você também

Nela você encontra aquela que cortou incríveis 3 milímetros de cabelo e fica sem falar com você por 3 semanas ou mais porque você não reparou. Há aquela que te faz esperar 15 minutos a mais além do atraso já esperado e te pede desculpas, ajeitando o brinco do lado esquerdo. Tudo bem! O sorriso da mulher já vem com um silencioso pedido de perdão. Todo atraso feminino deve ser perdoado: está escrito na bíblia do bom-senso! Mas não se engane: há também aquelas que chegam na hora e se irritam um tiquinho se você for o protagonista do atraso.

Uma mulher já são tantas. Aquelas que sonham em ser bailarinas, pilotar aviões, pousar na lua. Sim, rapaz, mulheres sonham alto, muito alto. E, não, nem toda mulher assiste à novela. Não, nem toda mulher chora na TPM (ok, isso talvez seja mentira!). Não, nem toda mulher gosta de rosa. Elas gostam dos gestos, da lembrança. A flor não precisa ser uma flor, pode ser um chocolate comprado em uma banca de jornal, um coração todo torto rabiscado no verso de um recibo de um supermercado barato… Pode ter certeza, rapaz, a maior riqueza que uma mulher pode receber é saber que você pensou nela em algum momento do seu dia!

Sim, rapaz, ela é única justamente por ser tantas.

seu adeus é meu exílio – parte I

Seus pulmões respiram o fumo

De um amor do qual nem fomos

E se agora eu perco o rumo

É por saber que nada somos

 

Há um coração sem fundo

Afundado em meu peito

Quando apanha alguns segundos

Eu me bato por inteiro

 

Sei que tudo é um sacrifício

Nosso amor foi só um vício

Sei que o nome desse filho

Será Pedro, terá seus cílios

 

Ela parte em um navio

E me deixa a ver vazios

Eu me afasto e anuncio:

Seu adeus é meu exílio.

Lembraça portátil

Um dia você deixou escapar que sentia vergonha por nunca ter lido um clássico. Eu fiquei vermelho, confesso!, mas admiti que não dava importância aos livros importantes. Aliás, não me lembro de ter lido nada de muito grandioso nos clássicos.

Cá entre nós, eles só servem para dizer que foram lidos ou para você se sentir um cara mais culto em um papo com os mais velhos. Heresia literária: eu li os clássicos para poder dizer com a mais absoluta incerteza que são chatos! Por falar nisso, achávamos chato qualquer livro com mais de 256 páginas e 12 personagens, lembra? Guerra e Paz ainda espera nossos olhos. Se depender da nossa vontade, Moscou morrerá de frio. E, com todo respeito, que se foda Napoleão. Dom Quixote ainda tenta chamar a nossa atenção com aqueles moinhos gigantes. Sancho tem um nome fofo. Meu cachorro teria esse nome. Se fosse um bulldog, claro!. E, pra mim, Cervantes será sempre um restaurante em Copacabana não um livro de bacana! E você ri. E eu também! E a gente se beija. Ah, e eu não me esqueço daquele silêncio homérico quando confessei que não li Ilíada e não entendi porra nenhuma da Odisseia. Prefiro mil vezes o Stanley mandando gregos e troianos fantasiados de macaco pro espaço. Desculpa os palavrões. Se eu me envergonho? Um pouco, confesso. Mas eu li o poema que você escreveu pra mim quando nem sonhávamos em sonhar em estar juntos um dia – se é que já estivemos juntos um dia. E aqueles versos bobos talvez sejam a coisa mais linda que li até hoje. Neruda que me perdoe. Quintana que me desculpe. Drummond que não me julgue. Aquele seu poema é o único clássico que tem espaço cativo e afetivo na minha estante: entre a Liberdade, de Franzen, e o Eu Hei-de Amar uma Pedra, de Lobo Antunes. E é lido todos os dias desde o dia que não nos vimos mais. Quando leio: “Amado, Antônio, o mundo é tão estúpido que as pessoas precisam amar.” Eu tremo. Quando releio “Antônio, amado, o mundo é tão estúpido que eu não posso te amar“. Eu choro. E essa fala ainda reverbera nitidamente feito berro silencioso nos meus tímpanos de menino. Eu ouço a sua voz declamar cada verso, como se fosse rasgar minha memória. E rasga.

Um dia você deixou escapar que sentia vergonha por nunca ter lido um clássico. Eu tenho vergonha dos que nunca leram um poema seu.

Amar-te até a morte

Eu já vi o mundo desabar tantas vezes que, às vezes, parece que o mundo foi feito mesmo para gente se desfazer. Ainda não havia aquela vontade vital de ser imortal porque a morte naquele momento parecia um confronto distante entre o que eu sinto agora – nesse instante – e o que você sente quando quer reviver o que já fomos antes.

(sem ressentimentos)

Mas o amor também morre, meu amor; e a morte também ama, minha morte. E é no elo desse duelo desesperado que a gente decide se quer continuar fraco no amor ou se entregar forte até a morte.

Tanto faz!
Amar ou morrer é um pouco igual. É poder ser sincero e aceitar que nunca seremos para sempre.

Tanto jaz!
Morrer ou amar tem um quê de banal. É querer ser inteiro e se despedaçar meio a meio como nunca.

Eu sei, é difícil, nunca foi fácil discernir o que é de verdade do que é de sentir…

É que eu já vi a morte desabar tantas vezes que, às vezes, amar não me parece tão ruim assim. É que eu já vi o amor desabar tantas vezes que, às vezes, morrer não me padece tão ruim assim.

Acredito ter visto, no meio de tantos escombros, meus ombros, seus olhos, meus poemas, suas coxas, meus problemas, seus cílios, nossos filhos (que filhos?), nossas contas, nossos contos e os ossos, teimosos!, das nossas alegrias. Ouça: a dobra do seu sorriso ainda me ri: “desdobre-se, meu amor, desdobre-se na morte para me reconstruir longe daqui, perto de ti, em mim”.

página solta, esperando o romance

Foi bom vê-la sorrir do outro lado da rua. Dezessete carros, dois cães, três botequins, vinte e duas pessoas, trinta e seis lágrimas (18 pares de olhos propagando uma nova forma de alegria), um assalto, sete pombos, e provavelmente alguns ratos, nos separam. Com o tempo, vejo que a xícara enfiada lindamente nos seus dedos ainda está quente: a fumaça leve feito brisa confirma. Contemplo seu cigarro enfiado nos seus lábios finos, dá um ar de intelectualidade. Sinto-me em Paris. Que bobeira! Como se a cidade nos fizesse mais inteligentes. Parece ser o décimo sexto trago do seu dia. Quando uma mulher fuma um cigarro ou bebe um café, ela não está simplesmente fumando um cigarro ou bebendo café, mas pensando na vida, naqueles amores que não deram certo, naqueles filhos que chegaram antes da hora, ou pior: naqueles velhinhos – pai e mãe – que partiram antes da hora. Fumo e aroma se confundem nas lembranças femininas, são sentidos de vida, o passado cortado como um frame de um filme que vive em cartaz nas salas (vazias?) da memória. Diretor: cigarro! Ator coadjuvante: café! Protagonista: ela!Daqui, do outro lado da calçada, admiro essa linda petite fille, sem trago, sem gole, sem gorjeta, sem garçom para perguntar como foi o meu dia. Ainda tenho o seu sorriso sorrindo em mim. De bandeja!

Estanque-me

Aproveite os bons ares de Buenos Aires para expirar J. L. Borges e inspirar O Aleph. Aquele ponto imaginário e jogado no infinito: o início e o fim de todas as coisas: onde cabe tudo e nada cabe, onde os sonhos se comprimem em alguma realidade distante e tão próxima para curar e estancar todas as dores que insistem em nos fazer sangrar. Jorge Luís Borges, mesmo quando usa uma linguagem complicada, no fundo só quer dizer uma coisa: que ama. E quando diz que ama, só quer dizer: que vive. E quando diz que vive: só quer se aproximar cada vez mais da morte. E morrer não é não mais respirar: é não querer enxergar a beleza da vida. E para isso não é preciso de olhos, de visão: sonhar é a mais bela forma de ver o mundo. Borges, de tanto amar e não ser compreendido, ficou cego. E mesmo cego, encontrou novas maneiras de sonhar o mundo e admirar a poesia. Infeliz deve ter sido por não ter conhecido a grandeza dos seus olhos negros. Com certeza seriam O Aleph de todas as belezas e de todas cores do mundo. Eu conheci os seus olhos: eu estive no seu mundo. E através deles vi o início e o fim das coisas, vi que tudo tem um começo, um meio e incontáveis fins, vi também que o amor é um ponto distante no universo onde cabe tudo e nada cabe, onde os sonhos se comprimem em alguma realidade distante e tão próxima de nós e nos curam de todas as dores que insistem em nos fazer sangrar. 

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